Plataformas que diminuem distâncias

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por Isabella Motta • para plataforma idança publicado el 18/06/2009
texto en ingles ][ English version: Platforms that shorten distances
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Diminuir as distâncias entre os artistas, promover a circulação de informações e a troca de experiências profissionais. Com as facilidades tecnológicas cada vez mais a mão, os profissionais de dança, performance (e artes em geral) estão conseguindo conjugar os verbos aí da primeira frase com mais facilidade. Multiplicam-se na rede as plataformas virtuais que derrubam as fronteiras entre países e culturas para aproximar pessoas com trabalhos afins que poderiam nunca se cruzar… É exatamente isso que propõem everybodys toolbox e o open-frames.net (OF). As duas plataformas, criadas na Europa, funcionam como bibliotecas ou arquivos virtuais, onde é possível acessar informações postadas pelos próprios artistas sobre seus trabalhos. É uma forma independente e direta de colocar os criadores em contato uns com os outros.

Além de dar ao artista a possibilidade de arquivar seus trabalhos, a everybodys toolbox – criado por Mette Ingvartsen e Alice Chauchat, com apoio do Danish Council – oferece ferramentas de ‘jogos’ e de criação de conteúdo para incentivar a troca de experiências e impressões entre os participantes. No Impersonation Game, por exemplo, um artista fala sobre seu trabalho, dando todos os detalhes do processo criativo. Depois, seu interlocutor – que deve ser um outro artista – reconta o que ouviu, como se fosse sua a criação. O objetivo é dar ao autor um olhar exterior sobre o trabalho em questão.

Outra interessante ferramenta disponível na plataforma é a de self interview, onde o artista elabora e responde suas perguntas sobre o processo criativo. O artista brasileiro Neto Machado – que conheceu Mette e o everybodys toolbox durante o projeto 6 months 1 location/ex.e.r.ce 08 –  experimentou e aprovou a ferramenta. “A autoentrevista é uma ferramenta muito útil para mim em diferentes fases da criação. Ela pode ser uma tentativa de organizar os pensamentos espalhados na cabeça e nas anotações, pode ser um registro de algo que já está claro e pode ser também uma forma de instigar novas possibilidades que ainda estão sem forma. Como sou eu mesmo que me entrevisto, posso encaminhar as questões na direção que mais me interessa no momento”, analisa Neto, que usou a plataforma para expor o processo criativo do trabalho Infiltration. Todas as 20 autoentrevistas publicadas estão disponíveis em formato PDF.

Para Neto, o formato não engessado da plataforma, que traz possibilidades de acrescentar metodologias de discussão do trabalho com os outros artistas é o grande trunfo do everybodys toolbox. “Isso cria uma rede de compartilhamento importantíssima. É, sem dúvida, uma das coisas que faz essa plataforma ser tão importante, principalmente porque o que ela tenta é compartilhar processo e não produto. Quem lê pode usar as ferramentas para descobrir outras coisas, sem ter um modelo definido do que essa ferramenta deveria gerar”, elogia. “A plataforma traz nas suas proposições uma política que vem contra o pensamento do artista gênio solitário ou da ideia brilhante. Ela é uma tentativa de fortalecer o pensamento de que as ideias compartilhadas se fortalecem ao invés de se enfraquecer. Quando compartilho metodologias, compartilho algo que alguém pode fazer exatamente da forma como descrevi, mas que com certeza vai gerar diferentes possibilidades”, completa.

Promover a aproximação de artistas que podem estar desenvolvendo projetos afins também é o objetivo do open-frames. Aqui, a ideia é um pouco mais simples que a da everybodys toolbox: uma plataforma virtual – uma espécie de arquivo aberto – onde os artistas ligados à dança e performance postam seus projetos respeitando um determinado padrão. No open-frames não há jogos ou ferramentas de interação, o principal objetivo é o arquivamento de trabalhos.

“Buscamos inspiração em sistemas semianônimos como o myspace, facebook, blogcom etc, atrás de uma rede online específica para trabalhos de performance. Como resultado, hoje nós temos um arquivo que dá ênfase à facilidade de leitura dos conteúdos”, explica Heike Langsdorf, um dos criadores da plataforma. Em tempos de diminuição das distâncias com ajuda da tecnologia, pipocam projetos inspirados em redes sociais, como o movimento.org, uma parceria do idança com a Red Sudamericana de Danza. No caso do OF, no entanto, o objetivo é estritamente a troca profissional, não há perfil dos membros. O open-frames é a evolução natural do projeto Frogs OS, uma rede de artistas profissionais que funcionou entre 2000 e 2008, com sede na Bélgica e que também era capitaneada por Langsdorf. Agora, os 36 trabalhos produzidos pelo Frogs OS estão disponíveis no open-frames. “A decisão de criar o open-frames foi uma forma de continuar o que dava certo no Frogs OS enquanto tira vantagem das possibilidades das redes virtuais”, completa Langsdorf, que trabalha em colaboração com Ula Sickle e Matthieu Collet.

O funcionamento da rede é simples: basta entrar em contato com os responsáveis pela administração do OF pelo email info@open-frames.net e eles enviarão um login de acesso para postar os trabalhos. É obrigatório publicar um texto descritivo (em inglês) do que ficará online, além de um vídeo ou até 15 imagens. Também há a opção de adicionar um pdf, tour data e de fazer links com outros sites. A pesquisa pode ser feita pelo título do projeto, nome do artista ou pela natureza do trabalho: arquitetura, dança, performance, instalação, novas mídias, fotografia etc.

Um dos projetos encontrados no OF é a performance Curator’s cut(foto 2), de 2007, postado pela balletanz.  O coletivo C&H divide o palco com vários extras como um cachorro, uma planta e um minishow de rock. Tudo em 25 minutos.  ”A contínua entrada de trabalhos e a comunicação entre os artistas e os usuários parece ser o caminho para que o open-frames continue a funcionar conforme sua intenção original: como um arquivo aberto”, analisa Langsdorf. Leia abaixo a entrevista completa que o idança fez, por email, com Heike Langsdorf:

Como o projeto Frogs OS se transformou no open-frames?

Frogs OS conscientemente evitou ser uma unidade estruturada, subsidiada ou patrocinada. Ele era uma rede temporária de pessoas e projetos que tinham como proposta um modo de trabalhar e produzir alternativo.  A ideia de iniciar uma rede para criar e apresentar trabalhos – normalmente muito diversos na forma, mas sempre mostrando um traço experimental comum – foi pensada como uma forma de dar visibilidade e credibilidade ao trabalho experimental. A decisão de criar o open-frames foi uma forma de de Frogs OS seguir com seus objetivos principais enquanto tira vantagem das possibilidades das redes virtuais.

Como nasceu a ideia de que o open-frames funcione como um “open archive”? A implementação do site foi fácil? Como foi?

Em seus sete anos de funcionamento, Frogs OS produziu inúmeros projetos de pesquisa e produções que foram continuamente documentados num blog, mas isso nunca foi publicado oficialmente. A sequência lógica parecia ser criar uma biblioteca, oferecendo a possibilidade de apresentar e publicar trabalhos. Transformando os outcomes do Frogs OS em arquivos online incentivaria uma crescente (mesmo que limitada) comunidade de usuários. Enquanto estávamos desenvolvendo e construindo o site, tomamos o cuidado de não criar mais um fórum online exclusivo o que, apesar de sua boa vontade, exige interação pessoal grande e se restringe a um círculo pequeno de pessoas. Ao contrário, nós buscamos inspiração em sistemas semianônimos como o myspace, facebook, blogcom etc, buscando por uma rede online específica para trabalhos de performance. Como resultado, hoje nós temos um arquivo que dá ênfase ao conteúdo e à legibilidade do conteúdo dos trabalhos. Open-frames não apenas apresenta trabalhos finalizados mas também está interessado em comunicar conceitos, estudos e pesquisas.

Open-frames é melhor em algum aspecto?

Ele não é necessariamente melhor que Frogs OS, mas é consequentemente mais aberto, já que não possui restrições físicas.

O fato de ser uma comunidade restrita às pessoas envolvidas com arte não dificulda o grande público de ter acesso aos trabalhos publicados?

Em comparação com outros arquivos, open-frames adotou um formato raramente encontrado na internet. A maior qualidade do open-frames é a limitação a um específico campo cultural, uma limitação que é difícil de manter sem a figura clássica do curador.

Desde 1º de janeiro open-frames já tem inúmeros participantes. O que eles têm dito sobre essa possibilidade de conexão entre artistas?

Os participantes parecem estar bastante interessados em conferir a possibilidade de se juntar a uma seleção de trabalhos e pessoas que eles desejam ser elas mesmas ‘autocuradoras’. Depois de um primeiro momento de entusiasmo e surpresa com o interesse das pessoas, o que nós vemos agora é uma interessante porém problemática questão entre entre qualidade x quantidade. A contínua entrada de trabalhos e a comunicação entre os artistas e os usuários parece ser o caminho para que o open-frames continue a funcionar conforme sua intenção original: como um arquivo aberto.

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Imágenes:
#1: fuente: jozeluiz.blogspot.com
#2: fuente: ecuadorciencia.org
#3:  Mapa del panorama musical obtenido por Last.fm – 2009, fuente: microsiervos.com
#4: Mapa Mundial de Internet – Diciembre 2010, fuente: genbeta.com

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